O Futuro e a Economia Colaborativa


Ao longo de 2017, cortes de gastos supérfluos e priorização do pagamento do que é essencial, como alimentação e moradia, são medidas que irão se repetir. Em tempos de crise, com inflação alta e desemprego, compartilhar é economizar. Economizar na compra de equipamentos que você só precisa utilizar ocasionalmente, trocar ou vender produtos usados, dividir as despesas de um espaço comercial com outras empresas, trocar o hotel por uma hospedagem residencial. Tudo isso é proporcionado pela economia compartilhada. Uma pesquisa da Market Analysis, especializada em comportamento do consumidor, mostrou que pelo menos um em cada cinco brasileiros já está familiarizado com esse conceito.

Nessa nova proposta, o acesso é mais importante que a posse e todo mundo pode ser fornecedor e consumidor ao mesmo tempo, garantindo uma autonomia financeira maior e descentralizando o fluxo entre clientes e empresas. Na economia colaborativa (ou compartilhada), você pode alugar uma bike para passear, conseguir um vestido de uma grife, emprestar uma batedeira e até arranjar alguém que fique com o seu cachorro enquanto você viaja.

Mas não é só a possibilidade de fazer uma graninha extra que chama a atenção nesse modelo de economia. No compartilhamento, o que faz a diferença é a experiência. Para alguns, a economia que surgiu da necessidade financeira, vem se tornando um estilo de vida, vinculados também a redução do impacto ambiental e o uso consciente dos recursos. Está aí a ciência para comprovar isso. Segundo estudos a compra de um objeto pode até nos deixar contentes por algum tempo, mas é das experiências que vivenciamos que vem a verdadeira felicidade. E aí temos um convite para repensar a cultura da posse e a percepção de objetos como status social. Afinal, como questiona Rachel Botsman, especialista em consumo colaborativo, você precisa de uma furadeira ou do furo?

E foi por isso e de olho nas tendências colaborativas da Europa, a carioca Camila Carvalho, de 25 anos, sentia a necessidade de uma plataforma de empréstimo de objetos entre amigos e vizinhos, e foi assim que nasceu o o Tem Açúcar. Para Camila, a economia de compartilhamento é um processo inteligente, divertido, natural e necessário para um planeta que tem recursos finitos

Redes sociais, crowdfunding, Airbnb e o celular conectado o tempo todo: a economia colaborativa não é o futuro, ela é o agora. Tudo isso já está acontecendo e eis aí uma grande oportunidade para dar chance ao novo, economizar uns trocados e recuperar a conexão com estranhos, o “bom dia” ao vizinho e todo aquele senso de humanidade que, nas últimas décadas, acabou se perdendo.

Mas não é só virtualmente que a economia colaborativa acontece, na capital da Alemanha, a Leila Berlin, uma loja de doações e empréstimos, espécie de biblioteca de coisas, funciona através de gestos e hábitos simples. O nome vem de um trocadilho em alemão entre as palavra leihen (emprestar) e laden (loja), e o esquema é objetivo e fácil: em uma sala, repleta de roupas e objetos em geral, qualquer um pode levar o que quiser, enquanto outros passam por lá para deixar alguma coisa que não use mais. Isso mesmo: você pode simplesmente levar o que achar que lhe vai ser útil. Assim, diminui-se o consumo, a produção de lixo, a poluição, e investe-se em reaproveitar aquilo que ainda possui muito tempo de uso para quem precisar. É sustentável e mais barato, partindo da ideia de que o acesso é mais importante do que a posse.

(Interior da loja Leila Berlin)


O conceito de economia colaborativa, contudo, vai muito além do empréstimo de objetos. Você também pode doar suas competências em troca do que está precisando, você pode dar aulas de inglês e receber aulas de violão em troca por exemplo. E se você pudesse doar carinho, afeto e brincadeiras? Isso é o que fazem os fundadores da DogHero, e as centenas de anfitriões desta empresa também brasileira que está transformando pessoas que gostam de cachorros em uma alternativa mais humanizada aos famosos hotéis de animais. “Um dos principais pontos em que os canis deixam a desejar é no atendimento às necessidades psicológicas do animal (carinho, afeto e brincadeiras) e isso ele recebe de sobra em nosso serviço. Nossos anfitriões são, de fato, apaixonados por cachorros”, explica Eduardo Baer, cofundador da empresa. Segundo Baer, a triagem consiste na checagem de dados e em uma entrevista, sendo que apenas 15% das pessoas que se candidatam são aprovadas para prestar o serviço. Além dessa verificação feita pela própria empresa, os animais têm direito a suporte e garantia veterinária durante toda a hospedagem. “Mesmo assim, às vezes, a reação inicial de alguns clientes é de estranhamento e desconfiança. Mas, ao longo do tempo, temos visto que com as avaliações no site e a recomendação dos amigos, as pessoas vão se acostumando com a ideia e acabam preferindo essa opção”, afirma.

Como mediadoras das negociações colaborativas, empresas como o Tem Açúcar, o DogHero, o Uber, o Airbnb, entre várias outras, desenvolvem seus próprios mecanismos de confiabilidade, seja na forma da verificação de um documento ou de uma entrevista. Mas é a reputação dos usuários o grande truque para garantir o sucesso e mostrar credibilidade dentro de serviços como estes. “A reputação é a medida de quanto uma comunidade confia em você”, afirma Rachel Botsman. Segundo ela, essa avaliação das experiências em serviços de compartilhamento é tão fundamental para a economia colaborativa que tem o potencial de se tornar uma espécie de nova moeda e se tornará mais poderosa do que o nosso histórico de crédito no século XXI.

Toda vez que você empresta um objeto no Tem Açúcar, recebe hóspedes na sua casa pelo Airbnb, ou recebe um cãozinho no DogHero, você será avaliado. A pessoa com quem você fez negócio deixará um depoimento falando sobre a experiência e, se houve algum problema, ele será marcado em sua “ficha”. Como esses serviços têm seus dados pessoais e muitas vezes estão conectados às suas redes sociais, aplicar golpes fica muito mais difícil. Afinal, se lá está escrito que você devolveu um carro três horas depois do combinado, queimou o banco com cigarro e foi um babaca, as chances de alguém deixar que você alugue outro carro diminuem drasticamente.

E se vocês está achando estranho justamente uma mercadóloga escrever sobre o assunto, vou te atualizar do seguinte: Nas últimas seis décadas, o pensamento de Marketing girou em torno da gestão do produto (décadas de 1950 e 1960), da gestão de clientes (décadas de 1970 e 1980) e da gestão da marca (anos 1990 e 2000), passando pelo estabelecimento e consagração de conceitos como o Marketing Mix de Neil Borden, nos anos 1950, e pelos 4 Ps de Jerome McCarthy na década de 1960. Os autores apontam para três possíveis estágios na evolução da filosofia de Marketing por parte de uma empresa: o Marketing 1.0, com foco industrial, centrado em produtos e em vendas, de natureza tática; o Marketing 2.0, da era da informação, voltada para o consumidor e sua satisfação, de natureza estratégica; e, finalmente, o Marketing 3.0, voltado para os valores e na transformação do mundo em um lugar melhor, de acordo com os anseios deste novo consumidor de humanizar relações entre pessoas e organizações, o que requer uma evolução sustentável na visão e nas práticas de Marketing.

Em uma visão extrema, o capitalismo perderá a dominância e dará lugar à economia colaborativa, compartilhada, em meados do século 21. Este é o raciocínio é desenvolvido em "Sociedade com Custo Marginal Zero", do economista norte-americano Jeremy Rifkin. Para ele, o dinamismo e a eficiência produtiva do sistema, somados à evolução das máquinas, serão os responsáveis por seu colapso. De acordo com o autor, "enquanto o mercado capitalista baseia-se no interesse próprio e é guiado pelo ganho material, os bens comuns sociais são motivados por interesses colaborativos e guiados por um profundo desejo de se conectar com os outros e de compartilhar". "A busca do interesse próprio está sendo moderada pela pressão de interesses colaborativos, e o tradicional sonho de enriquecimento financeiro está sendo suplantado pelo sonho de uma qualidade de vida sustentável", escreve o autor.

E aí, pronto para colaborar?

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